quarta-feira, 5 de setembro de 2018

E aconteceu...

Sabia que ia acontecer, era certo, tão certo como raras coisas são nessa vida de incerteza. Sofri e chorei tanto na antecipação do dia, o que na verdade não aliviou em nada o dia. Sinto que preciso de falar sobre isso e ao mesmo tempo tentar verbalizar tudo torna-o ainda mais real, o que parece que não ajuda, mesmo com a certeza que a dor nunca deixou de ser real.

Não quero recordar o pesadelo dos teus últimos dias, não quero recordar o final dos teus dias, dos nossos dias. Quero relembrar os sorrisos, o amor, a vida, a personalidade, o sentido de humor, quero recordar sem dor. 

Quero parar de chorar a perda e as saudades e ao mesmo tempo angustia-me que te esqueça. Acho impossível esquecer-te, mas às vezes, só às vezes, passam minutos que não me lembro que não estás. Às vezes deito-me na cama e esqueço-me que não estás na tua. Já te vi várias vezes, e quando me lembro que já não é possível, é como se me estivessem a arrancar órgãos. Dizem que a dor passa e ficam só as saudades, informo que tenho os dois.

Se calhar, daqui a dias, consigo passar para aqui o tranbulhão de sentimentos que para aqui vai. Se calhar escrevo só sobre os nossos dias bons, se calhar vou precisar de contar os maus. Não sei. Se calhar se contar o inferno que passamos naqueles dias as pessoas percebem o porquê da necessidade da eutanásia/suicídio assistido ser legal.

Hoje apenas sei que, passado um mês que partiste, não há um dia que não me lembre de ti meu querido pai e a puta da falta que me fazes.




4 comentários:

Maggie F. disse...

Olá querida, só para dizer que sinto muito e partilhar que perdi a minha mãe há quase 3 anos (faz amanhã), e só comecei a sentir-me melhor 2 anos depois. Hoje já consigo lembrar-me e recordar com saudade quase sem chorar, mas é um caminha difícil. Um mês é muito pouco.
Muita força.
Beijinho


Maggie

José Jesus disse...

Esse duplo sentimento (querer esquecer e não querer esquecer), é lixado. O tempo não cura nada, mas a vida vai-nos dando tanto que fazer, que acabamos arrumando as tristeza naquela gaveta onde só vamos quando as saudades apertam.
De resto, não tenho muito mais a dizer a não ser que lamento e "choro" um bocadinho contigo.

Anónimo disse...

a minha querida mãe também já partiu (30 Agosto). Cada dia que passa é mais difícil, as saudades , essas, matam-me por dentro. Penso que passei pelo mesmo que o seu pai, com a situação de saúde . Os últimos dias são um terror, que Deus não devia permitir..., nem para o doente nem para quem o acompanha dia a dia. Ando perdida, triste, revoltada.... . Sou filha única, tudo "pesa" só para mim....
Não sei se algum dia voltarei a ser a mesma.
Lamento imenso a sua perda, acho que consigo perceber o que sente.
Talvez o tempo possa ajudar... quem sabe?
Beijinho/Dulce

Gasper disse...

Meus queridos, do fundo do coração, obrigada.

Dulce, não tenho palavras. Faltam sempre as palavras quando mais são precisas. Um beijinho do tamanho do mundo